No limiar do estar, e do partir…

Esta noite, é o limiar do que eu sempre mais temi na minha vida. A perda física da minha avó.

Sempre me tentei preparar para isto, há anos, que vivo evitando a sensação de ansiedade que só pensar neste acontecimento me causava. O aperto no peito era demasiado forte. Sempre foi. Preparei-me, pensando eu, que sabia me preparar, mas nunca se consegue…

Sei que esta noite, tudo vai mudar. Já sentia essa mudança à algum tempo, mas esta noite, neste limiar entre o estar e o partir, meu coração abandona o medo, aceitando que assim, da forma como se encontra, eu não consigo mais sequer a ver… Porque não é justo.

Vivi trinta anos com a minha avó, todos os dias da minha vida. E mais que uma ligação familiar, eu acho que é uma ligação espiritual. Sinto-a do mesmo fragmento, porque a conseguia abraçar sem nenhuma dificuldade.

Não sei o que a vida está a tentar fazer neste limiar que é esta espera entre o ela ficar e partir, seu corpo ainda vive, seu coração ainda bate, mas seu cérebro parou. Pergunto-me, qual o desígnio de Deus, neste momento ?! Merecia algo bem mais suave. Sempre foi uma luz, um coração bondoso, uma alegria viva.

Este momento, foi o momento que sempre temi. Sempre tive medo da dor que ia sentir. Sempre tive medo do vazio que ia ficar após. Sempre tive medo de não conseguir lidar.

Mas hoje, mais que medo, eu penso que não é justo querer que estivesse aqui, desta forma. Hoje, sei que é egoísmo querer que se mantivesse aqui, cansada, só porque iria doer a mim, a nós. Hoje percebo, que é hora de descansar da vida, das contradições.

Agora, só peço que parta em paz. Agora, só peço que a Criação acabe com esse limiar que a esta a segurar aqui por um fio. Agora, só peço que tenha sossego.

Não consigo dizer muito mais por agora. Sinto, que ainda tenho que sofrer o que vai ser necessário sofrer, e que a verdadeiro dor está prestes a bater à porta, mas só prometo, vou tentar ser feliz, porque sei que me queria ver feliz.

Vou tentar a lembrar sempre com a bondade que lhe era inerente, porque não quero gravar mais nada a não ser a luz que é, a luz que era.

Sempre lhe pedi para me vir visitar. Continuo a desejá-lo.

Talvez esta, seja a perda mais significante da minha vida. Talvez este momento, seja o momento de (re)volta. Talvez este momento seja o ponto de partida dela, e talvez seja também o meu.

Amo eternamente cada pedacinho dela. Amo eternamente cada memória.

Sei que me leva consigo. Ficará comigo da mesma forma.

Já despedi meu coração.

E minha saudade já começa a bater…

Espero que este limiar entre hoje, um dia nos voltarmos a encontrar, seja apenas um até já…

Ate já minha Avó ! Minha Luz !

Descanso contigo meu coração.

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